O setor elétrico brasileiro se prepara para uma decisão com potencial de influenciar diretamente o comportamento dos preços de energia ao longo de 2027. O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) irá definir, até o final de julho de 2026, os parâmetros de aversão ao risco que serão utilizados nos modelos computacionais responsáveis pela operação do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Na prática, a decisão pode determinar um cenário de energia mais cara ou mais barata no próximo ano, além de afetar o volume de encargos pagos pelos consumidores.
O centro do debate está no chamado CVaR (Conditional Value at Risk), mecanismo utilizado para calibrar o nível de conservadorismo da operação elétrica brasileira. A escolha do parâmetro influencia diretamente o despacho de usinas termelétricas, a preservação dos reservatórios hidrelétricos e, consequentemente, a formação dos preços no mercado de energia.
Como funciona a formação de preços no setor elétrico?
Os preços de energia no Brasil são definidos a partir de modelos computacionais como Newave, Decomp e Dessem, que simulam a operação do sistema considerando variáveis como armazenamento dos reservatórios, projeções hidrológicas, demanda de carga e necessidade de despacho das usinas térmicas e hidrelétricas.
Dentro desses modelos, ferramentas como o VMinOp e o CVaR determinam o grau de prudência adotado na operação do sistema.
O VMinOp estabelece níveis mínimos de armazenamento nos reservatórios, buscando garantir segurança energética ao fim do período seco. Já o CVaR é um parâmetro estatístico que atribui maior peso aos cenários hidrológicos mais críticos, influenciando decisões operacionais voltadas à preservação de água e ao acionamento antecipado de termelétricas.
Desde os ciclos operativos de 2025 e 2026, o setor passou a utilizar o chamado par CVaR 15/40. Nesse modelo, os 15% piores cenários hidrológicos recebem peso de 40% na formação de preços e nas decisões operativas, tornando a operação mais conservadora e elevando o despacho térmico.
O que será decidido pelo CMSE?
A reunião do CMSE definirá se o atual parâmetro de aversão ao risco será mantido ou recalibrado para o ciclo operativo de 2027.
O tema foi discutido em consulta pública realizada entre 24 de fevereiro e 10 de abril de 2025, período em que foram recebidas 46 contribuições de agentes do setor. As manifestações evidenciaram a ausência de consenso sobre qual nível de conservadorismo deve orientar a operação do sistema elétrico brasileiro.
O principal ponto de divergência é justamente a manutenção do par CVaR 15/40. Na prática, esse parâmetro faz com que os modelos considerem não apenas o custo médio esperado da operação, mas também os impactos associados aos cenários hidrológicos mais severos.
Quanto maior a aversão ao risco, maior tende a ser o despacho preventivo de termelétricas para preservar água nos reservatórios. Como a geração térmica possui custo superior ao das hidrelétricas, o resultado é uma elevação dos preços da energia no presente.
Por outro lado, a lógica desse modelo é funcionar como uma espécie de seguro operacional: o sistema assume um custo maior agora para reduzir o risco de escassez hídrica e explosão de encargos no futuro caso as chuvas fiquem abaixo do esperado.
O dilema entre segurança energética e custo
O debate gira justamente em torno do equilíbrio entre segurança operativa e modicidade tarifária.
Os defensores de um modelo mais conservador argumentam que preservar os reservatórios reduz o risco de acionamentos emergenciais de térmicas no futuro, o que poderia gerar encargos ainda mais elevados para consumidores.
Já os agentes favoráveis a uma redução da aversão ao risco afirmam que o atual modelo estaria impondo um custo excessivo ao sistema ao antecipar despachos térmicos além do necessário.
Na avaliação desses agentes, o consumidor estaria pagando hoje por um nível de segurança considerado desproporcional frente aos ganhos efetivos de armazenamento obtidos nos reservatórios.
O que defendem as associações do setor?
Parte dos geradores defende a manutenção do par CVaR 15/40, argumentando que reduzir a aversão ao risco pode comprometer a segurança energética e aumentar custos futuros associados a encargos setoriais.
Já agentes que apoiam o par 15/35 avaliam que os modelos estão superestimando os cenários críticos, o que levaria a um despacho térmico excessivo e, consequentemente, a preços artificialmente elevados.
A ABRACEEL defende a adoção do par 15/30. Segundo estudos da associação, a mudança poderia reduzir em cerca de R$ 5,4 bilhões os custos de geração térmica, com impacto estimado de redução tarifária de 0,98%. Para a entidade, o ganho adicional de armazenamento proporcionado pelo modelo 15/40 não justificaria o aumento de custo imposto aos consumidores.
Por outro lado, a ABRAGE estima que a adoção do par 15/30 poderia elevar em aproximadamente R$ 1 bilhão os encargos futuros, justamente pela menor preservação dos reservatórios e pela necessidade de despachos térmicos corretivos em momentos posteriores.
Pressão comercial e crise de liquidez no mercado livre
A discussão sobre o CVaR também expôs interesses econômicos distintos entre os agentes do setor elétrico.
O atual patamar de preços elevados beneficia geradores descontratados, que conseguem capturar receitas maiores no mercado de curto prazo. Em contrapartida, comercializadoras e consumidores enfrentam maior dificuldade para fechar contratos de médio e longo prazo em condições competitivas.
Esse movimento contribuiu para uma deterioração da liquidez no mercado livre de energia, aumentando custos para consumidores industriais e comerciais e pressionando comercializadoras expostas à volatilidade dos preços.
Em alguns casos, empresas passaram a recorrer ao Judiciário para renegociar contratos ou buscar proteção financeira diante da escalada de preços.
Com menor oferta de contratos de longo prazo e preços mais elevados no curto prazo, cresce a exposição ao mercado spot. Esse cenário enfraquece um dos principais pilares do mercado livre de energia: a previsibilidade de custos proporcionada pela contratação antecipada de energia em condições competitivas.