A expansão da inteligência artificial já começa a provocar mudanças relevantes no setor elétrico global – e não é apenas do ponto de vista do consumo de energia.
Segundo análise recente da PwC, o crescimento dos data centers e da infraestrutura digital está alterando a forma como investidores avaliam ativos, estruturam operações de fusões e aquisições (M&A) e definem prioridades dentro do mercado de energia.
A percepção da consultoria é que não se trata de um movimento passageiro. A demanda energética associada à IA tende a crescer nos próximos anos e deve pressionar desde geração e transmissão até infraestrutura de suporte, como gás natural, armazenamento e minerais críticos.
Isso ajuda a explicar por que o mercado de M&A em energia, utilities e recursos naturais voltou a ganhar força em 2025. Mesmo com uma leve queda no número de operações, o valor movimentado cresceu 27% no mundo, puxado principalmente pelos megadeals – transações acima de US$ 5 bilhões.
Boa parte desse capital está migrando para ativos considerados mais previsíveis. Em um ambiente de juros ainda elevados e maior cautela financeira, investidores passaram a priorizar ativos operacionais, com geração de caixa mais clara e menor risco de execução. Projetos greenfield continuam existindo, mas perderam espaço em relação a ativos já maduros.
No fundo, existe uma preocupação cada vez maior com segurança energética e previsibilidade de fluxo de caixa.
Data centers aumentam pressão sobre o sistema elétrico
O avanço dos data centers mudou o tamanho da demanda. Plataformas de IA exigem processamento constante, grande capacidade computacional e consumo elevado de eletricidade praticamente 24 horas por dia.
Por isso, a discussão energética deixou de ficar restrita apenas à transição para fontes renováveis. O debate agora envolve também confiabilidade, estabilidade e capacidade de atendimento contínuo.
Na avaliação da PwC, atender essa nova carga vai exigir investimentos em várias frentes ao mesmo tempo: geração renovável, baterias, reforços em transmissão, expansão de rede e também fontes firmes, como gás natural e GNL.
Até a energia nuclear voltou a aparecer com mais frequência nas discussões internacionais sobre segurança energética.
No caso brasileiro, o gás tende a ganhar importância justamente por funcionar como fonte despachável em uma matriz predominantemente renovável. A combinação entre crescimento da geração intermitente e aumento da demanda digital reforça essa necessidade de equilíbrio operacional do sistema.
Brasil aparece como mercado relevante para novos negócios
A PwC avalia que o Brasil segue bem posicionado dentro desse novo ciclo de investimentos.
A combinação entre matriz elétrica diversificada, expansão das renováveis, crescimento do mercado livre e pipeline robusto de projetos em energia e saneamento mantém o país no radar de investidores estratégicos e fundos internacionais.
Existe também uma percepção de relativa previsibilidade regulatória quando comparado a outros mercados emergentes, embora o setor elétrico brasileiro continue convivendo com mudanças frequentes de regras, judicializações e discussões regulatórias importantes.
O desafio, segundo a consultoria, será estruturar operações que consigam equilibrar escala, resiliência operacional e disciplina de capital em um ambiente ainda pressionado pelo custo financeiro.
Parte desse movimento já começou. Um dos exemplos mais comentados recentemente envolve a parceria entre ByteDance, dona do TikTok, Casa dos Ventos e Omnia, empresa ligada ao Pátria Investimentos, para implantação de um grande data center no Brasil. O projeto prevê investimentos de R$ 200 bilhões e operação a partir de 2027.
Outro ponto que aparece em destaque no relatório é o avanço do capital privado no financiamento da expansão energética e digital. Projetos ligados à IA exigem volumes enormes de investimento, prazo longo e compartilhamento de risco. Isso abre espaço para fundos soberanos, private equity, crédito privado e grandes gestoras de infraestrutura.
No mercado internacional, a PwC cita iniciativas como o Stargate, projeto de infraestrutura de IA estimado em US$ 500 bilhões com participação de OpenAI, Oracle e SoftBank.
Curtailment passa a pesar mais nas teses de investimento
No Brasil, existe ainda um outro fator importante nessa conta: o curtailment.
A expansão acelerada das fontes solar e eólica nos últimos anos ampliou bastante o número de ativos disponíveis para negociações de M&A. Houve crescimento relevante tanto na venda de usinas operacionais quanto em estratégias de rotação de ativos por fundos e investidores financeiros.
O mercado de geração distribuída também entrou nesse movimento, principalmente depois da corrida por projetos entre 2022 e 2023.
Só que a velocidade da expansão renovável acabou esbarrando em limitações estruturais do sistema, especialmente na transmissão.
Com isso, os cortes de geração começaram a afetar diretamente as projeções financeiras dos empreendimentos. E isso muda bastante a percepção de valor dos ativos.
Hoje, investidores já olham não apenas capacidade instalada ou fator de capacidade, mas também risco de restrição de escoamento, localização do projeto, flexibilidade operacional e exposição ao curtailment.
Em alguns casos, esse cenário reduz retorno esperado. Em outros, cria oportunidades para consolidação de portfólio e aquisição de ativos mais descontados.
A disputa agora envolve energia e capacidade computacional
O crescimento da inteligência artificial está criando uma relação cada vez mais direta entre infraestrutura digital e setor elétrico.
A energia passa a ocupar um papel estratégico dentro da economia digital – não apenas como insumo, mas como condição necessária para expansão tecnológica.
Isso tende a deixar o mercado de M&A mais seletivo nos próximos anos. Ativos resilientes, infraestrutura crítica e projetos capazes de entregar previsibilidade operacional devem ganhar ainda mais valor.
Para o Brasil, o momento abre espaço importante para atração de investimentos. Mas também expõe gargalos que o setor já conhece há algum tempo: transmissão insuficiente, curtailment crescente, expansão da rede e necessidade de maior coordenação regulatória.