A evolução recente da capacidade instalada de energias renováveis no mundo indica um avanço relevante, porém ainda insuficiente para o cumprimento da meta de triplicação estabelecida na COP 28. O desafio central não está mais na viabilidade tecnológica ou econômica das fontes, mas na capacidade de sustentar um ritmo de expansão compatível com o objetivo de atingir 11,2 TW até 2030.
Evolução da capacidade instalada e ritmo de crescimento
Dados da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) apontam que a capacidade global de geração renovável alcançou 5.149 GW em 2025, com adição anual de 693 GW, o que representa um crescimento de 15,5% em relação a 2024.
Embora expressivo em termos absolutos, esse incremento ainda não configura a trajetória necessária. Para viabilizar o cumprimento da meta até o fim da década, seria necessário sustentar um crescimento médio anual de aproximadamente 16,6%, acima do observado no último ciclo.
Composição tecnológica da expansão
A expansão permanece altamente concentrada em fontes variáveis, com predominância da geração solar fotovoltaica:
- Solar fotovoltaica: 511 GW adicionados (≈75% do total)
- Eólica: 159 GW
- Hidrelétrica: 18,4 GW
- Bioenergia: 3,4 GW
Esse perfil reforça a tendência de eletrificação baseada em fontes intermitentes, o que amplia a necessidade de soluções complementares, como armazenamento, resposta da demanda e expansão da rede de transmissão para garantir confiabilidade e adequação do sistema.
Assimetrias regionais na expansão
A distribuição geográfica da expansão segue concentrada, com forte protagonismo asiático:
- Ásia: 513,3 GW adicionados (74,2% do total global), crescimento de 21,6%
- África: 11,5 GW adicionados, crescimento de 15%
Essa concentração evidencia restrições estruturais em outras regiões, associadas a acesso a financiamento, maturidade regulatória e infraestrutura elétrica. Como resultado, a transição energética avança de forma heterogênea, com impactos diretos sobre segurança energética e competitividade.
Dinâmica recente e projeção de déficit
Em 2024, a expansão global havia sido de 582,2 GW, com crescimento de 15,1% sobre 2023. À época, a IRENA já indicava que a manutenção desse ritmo implicaria um déficit da ordem de 0,8 TW até 2030.
A evolução de 2025, ainda que superior em volume absoluto, não alterou substancialmente esse diagnóstico, uma vez que a taxa de crescimento permaneceu abaixo do patamar necessário.
Brasil: desaceleração e restrições operativas
No caso brasileiro, observa-se uma desaceleração na expansão da capacidade renovável. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), foram adicionados 4,9 GW em 2025, ante 9,9 GW em 2024.
Esse movimento está associado, em grande medida, a restrições operativas no sistema, especialmente relacionadas ao curtailment de geração – fenômeno decorrente de limitações no escoamento da energia, em função de gargalos na infraestrutura de transmissão e falta de demanda.
Como consequência, há aumento da percepção de risco por parte dos investidores, com impactos sobre decisões de investimento, cronogramas de implantação e viabilidade econômica de novos projetos.
Considerações
O cenário atual indica que, embora a expansão das energias renováveis mantenha trajetória consistente, há um descompasso entre o ritmo observado e o necessário para o cumprimento das metas globais.
A superação desse gap depende de um conjunto de fatores estruturais:
- expansão coordenada da geração e da transmissão;
- aprimoramento dos marcos regulatórios;
- mecanismos de financiamento de longo prazo;
- incorporação de flexibilidade sistêmica (armazenamento e gestão da demanda).
Sem esses elementos, a tendência é de continuidade do crescimento, porém em patamar insuficiente para atender aos compromissos climáticos e à crescente demanda por eletrificação.