O consumo de eletricidade no Brasil deverá passar de 702 terawatts-hora (TWh), em 2026, para 979 TWh, em 2036, um crescimento de aproximadamente 40%. Para acompanhar essa evolução e atender às necessidades operativas do sistema, o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2036 – que está em consulta pública até 6 de novembro – projeta acréscimo de cerca de 110 gigawatts (GW) na capacidade dos recursos elétricos e investimentos de R$ 127,1 bilhões na expansão da transmissão.
Elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o relatório aponta para um setor elétrico maior e mais diversificado ao final do decênio. Além de novas usinas e linhas, o planejamento prevê a inserção de 7,2 GW de baterias, 2 GW de usinas hidrelétricas reversíveis e 4 GW de resposta da demanda.
Esses recursos deverão contribuir para um desafio que ganha importância com o avanço das fontes eólica e solar: assegurar potência e flexibilidade nos momentos em que o sistema precisa, mesmo diante de variações na geração e no consumo.
As projeções, porém, reúnem empreendimentos em diferentes estágios de desenvolvimento, incluindo instalações contratadas e expansões indicativas.
Demanda cresce com novas cargas e maior uso da eletricidade
Segundo o PDE, o consumo total de eletricidade deverá crescer, em média, 3,4% ao ano entre 2026 e 2036. O consumo da rede, incluindo a micro e minigeração distribuída (MMGD), avançará de 620 TWh para 878 TWh. Já a autoprodução não injetada e o consumo interno das usinas passarão de 82 TWh para 101 TWh.
O relatório também projeta aumento do consumo por habitante, de 3.272 para 4.455 quilowatts-hora (kWh) anuais. A evolução reflete tanto a atividade econômica quanto mudanças nos padrões de utilização da eletricidade.
Entre os vetores de crescimento estão os data centers, a eletromobilidade e a produção de hidrogênio por eletrólise. Em conjunto, o consumo dessas cargas deverá passar de aproximadamente 4 TWh, em 2026, para 47 TWh, em 2036.
A maior contribuição virá dos data centers, cujo consumo deverá alcançar cerca de 30 TWh ao final do período. De acordo com a EPE, os novos empreendimentos apresentam necessidades de eletricidade muito superiores às observadas anteriormente e, em razão de seu porte, tendem a buscar conexão direta à rede básica.
A eletromobilidade deverá responder por aproximadamente 15 TWh em 2036. Desse total, 9,4 TWh estarão associados a veículos leves, 4,6 TWh a ônibus urbanos e 0,7 TWh a caminhões. A produção de hidrogênio eletrolítico terá participação menor, com crescimento concentrado na segunda metade do decênio.
Na operação do Sistema Interligado Nacional (SIN), a carga global de energia elétrica deverá aumentar de 85.070 megawatts médios (MW médios) para 118.260 MW médios, uma expansão média de 3,3% ao ano. O Nordeste apresenta a maior taxa regional, de 3,7%, enquanto o Sudeste/Centro-Oeste mantém o maior volume de carga.
O atendimento aos picos também exigirá atenção. A demanda máxima horária deverá alcançar 155 GW em 2036. O uso de equipamentos de climatização, sobretudo durante ondas de calor, e os horários de recarga de veículos elétricos estão entre os fatores capazes de modificar a curva de carga.
Geração distribuída lidera a ampliação da capacidade
No recorte nacional apresentado pelo relatório, a capacidade total deverá passar de 272 GW, em 2026, para 382 GW, em 2036. Esse agregado inclui geração centralizada, sistemas isolados, MMGD e autoprodução, além dos recursos de armazenamento e resposta da demanda contabilizados pelo plano.
A micro e minigeração distribuída terá a maior contribuição individual para essa expansão. Sua capacidade deverá subir de 50,3 GW para 91,7 GW, um acréscimo de aproximadamente 41,4 GW. A EPE estima que o segmento alcance 13,5 milhões de adotantes em 2036.
Os investimentos em MMGD deverão somar cerca de R$ 96 bilhões no decênio. Os sistemas fotovoltaicos concentram R$ 92 bilhões, equivalentes a 96% do total, com destaque para a participação dos consumidores residenciais.
Na geração eólica, a capacidade nacional deverá avançar de aproximadamente 36 GW para 50 GW. A solar centralizada passará de cerca de 23 GW para 33 GW, enquanto a capacidade hidráulica, incluindo grandes usinas e pequenas centrais hidrelétricas, aumentará de aproximadamente 111 GW para 120 GW.
O plano também prevê crescimento das termelétricas não renováveis, de cerca de 34 GW para 47 GW no recorte nacional. A expansão desses recursos se relaciona, entre outros fatores, à necessidade de garantir atendimento de potência.
Para a geração centralizada, incluindo os sistemas de armazenamento considerados nesse segmento, os investimentos estimados são da ordem de R$ 415 bilhões. Desse montante, R$ 96 bilhões correspondem a empreendimentos já contratados.
No recorte do SIN, que não considera a autoprodução, o PDE estima que 87% da capacidade instalada em 2036 corresponda a fontes renováveis. Ao mesmo tempo, 47% será composta por renováveis não controláveis, ampliando a importância de recursos capazes de responder às mudanças de geração e demanda.
Transmissão deverá superar 230 mil quilômetros
A expansão da oferta e o atendimento às novas cargas exigirão reforços na infraestrutura de transporte de eletricidade. O cenário de referência do PDE prevê acréscimo de 31,9 mil quilômetros de circuitos de linhas de transmissão entre 2027 e 2036.
Com isso, a extensão da rede deverá passar de 198,7 mil quilômetros, estimados para dezembro de 2026, para 230,6 mil quilômetros ao final de 2036, crescimento de aproximadamente 16%.
A capacidade de transformação nas subestações deverá aumentar cerca de 19%, passando de 523,4 mil para 623 mil megavolt-amperes (MVA). Os maiores acréscimos estão previstos nas redes de 500 kV e 230 kV.
Dos R$ 127,1 bilhões projetados para o segmento, R$ 79,6 bilhões serão destinados às linhas de transmissão e R$ 47,5 bilhões às subestações. Os valores incluem empreendimentos já outorgados e novas instalações indicadas pelos estudos.
Segundo a EPE, essa expansão deverá fortalecer a integração entre regiões, o escoamento da geração, o atendimento a grandes consumidores e a confiabilidade do suprimento. O planejamento também incorpora a necessidade de tornar a infraestrutura mais resistente a eventos climáticos extremos.
Além de novas instalações, o relatório destaca tecnologias para ampliar o aproveitamento da rede existente. Uma delas é o Dynamic Line Rating (DLR), que utiliza sensores e informações meteorológicas para calcular a capacidade disponível das linhas em tempo real ou com algumas horas de antecedência.
De acordo com o documento, essa capacidade frequentemente supera entre 10% e 30% o limite estático. O uso da tecnologia, assim como de dispositivos de controle de fluxo e condutores especiais, pode otimizar ou postergar investimentos em determinadas situações.
Baterias e reversíveis ganham espaço no planejamento
O PDE indica a inserção de 9,2 GW de sistemas de armazenamento até 2036, sendo 7,2 GW de baterias e 2 GW de hidrelétricas reversíveis. Esses valores representam potência, e não a quantidade de energia que os sistemas poderão armazenar.
Para as baterias, o cenário prevê entradas anuais em operação a partir de 2028. Sua contribuição está associada ao atendimento da demanda máxima e à possibilidade de deslocar energia de períodos com maior disponibilidade para horários de maior necessidade.
As hidrelétricas reversíveis aparecem, pela primeira vez no planejamento decenal, como alternativa para suprimento de potência dentro do horizonte analisado. Sua inserção é indicada a partir de 2035, condicionada à evolução dos estudos, da regulação, do licenciamento e dos processos de contratação.
Essas usinas bombeiam água para um reservatório superior em momentos de menor demanda ou elevada disponibilidade de geração. Posteriormente, utilizam a água armazenada para produzir eletricidade, deslocando grandes volumes de energia entre diferentes períodos.
Segundo a EPE, a combinação de tecnologias de armazenamento amplia a capacidade de resposta do sistema a diferentes condições operativas. Também favorece a integração das renováveis e o aproveitamento dos ativos de geração, transmissão e distribuição.
A viabilidade dessa expansão exige mecanismos que reconheçam e remunerem os serviços prestados, como potência, flexibilidade e segurança energética. O relatório ressalta que a indicação no planejamento depende de condições econômicas e regulatórias adequadas para se transformar em investimento.
Resposta da demanda
A resposta da demanda também deverá ganhar escala. O PDE indica contribuição de 4 GW em 2036, enquanto um estudo citado pela EPE estima potencial de 8,8 GW nos segmentos industriais e de cogeração.
O mecanismo permite que consumidores ajustem o uso da eletricidade em resposta a preços ou a comandos do operador, mediante remuneração. Dessa forma, parte do atendimento às necessidades do sistema pode ocorrer pela redução ou pelo deslocamento do consumo.
O relatório identifica limitações no programa atual, voltado principalmente a consumidores industriais. Sua ampliação para outros segmentos depende de revisão das especificações técnicas e da criação de produtos compatíveis com diferentes perfis de consumo.
O planejamento também considera a modernização e a repotenciação de hidrelétricas existentes, com contribuição de cerca de 820 MW. A utilização desses ativos representa alternativa para ampliar a capacidade do sistema.
Expansão exige coordenação para lidar com excedentes
O crescimento da demanda e a entrada de recursos de flexibilidade poderão ajudar a absorver a expansão renovável, mas o PDE não projeta o desaparecimento dos cortes de geração.
No cenário de referência, os resultados médios indicam que o curtailment poderá permanecer em ordem de grandeza semelhante à de 2026, em termos absolutos, ao longo do decênio. O crescimento da carga, os reforços de transmissão, o armazenamento e a resposta da demanda podem compensar parcialmente os efeitos da entrada de novas fontes não controláveis.